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Schopenhauer e a felicidade: o pêndulo entre a dor e o tédio

Schopenhauer e a felicidade: por que, para o filósofo, a vida oscila entre a dor e o tédio, o que a psicologia confirma e o que ele propôs para viver melhor.

Você esperou a semana inteira pelo domingo. Nada de despertador, nada de reunião, nenhuma obrigação. Por volta das quatro da tarde, uma sensação estranha começa a subir. Não é cansaço, nem tristeza. É um tédio inquieto, uma vontade vaga de que alguma coisa aconteça.

O descanso desejado chegou. E, assim que chegou, virou outra coisa.

Arthur Schopenhauer descreveu essa oscilação há duzentos anos com uma imagem que continua a desconcertar quem a encontra: a vida humana balança como um pêndulo entre a dor e o tédio. Entender Schopenhauer e a felicidade é entender por que a satisfação dura tão pouco e o que um dos filósofos mais pessimistas da história, curiosamente, propôs para viver melhor.

Schopenhauer e a felicidade: pessoa entediada no sofá num domingo à tarde, sob um relógio de pêndulo

Quem foi Schopenhauer

Arthur Schopenhauer nasceu em 1788, em Danzig, e morreu em 1860, em Frankfurt. Filho de um comerciante rico, viveu de renda e passou décadas praticamente ignorado pelo meio acadêmico alemão, ofuscado por Hegel. Sua obra principal, O mundo como vontade e representação, saiu em 1818, com data de 1819, e vendeu muito pouco.

A fama só veio no fim da vida, com Parerga e Paralipomena, de 1851, uma coleção de ensaios mais leves que inclui os Aforismos para a sabedoria de vida. Depois dele, influenciou nomes como Nietzsche, Wagner, Tolstói e Freud. Para um panorama acadêmico da obra, o verbete da Stanford Encyclopedia of Philosophy é uma boa referência.

A vontade: o motor que nunca desliga

Para Schopenhauer, por trás de tudo o que existe há uma força cega e insaciável, que ele chamou de vontade. Não é a vontade no sentido de decisão consciente. É um impulso sem finalidade última, que se manifesta na natureza inteira e, no ser humano, aparece como desejo.

O ponto crucial é que essa vontade não tem um estado final. Não existe um desejo cuja satisfação encerre o querer. Cada objetivo alcançado apenas abre espaço para o próximo.

O pêndulo de Schopenhauer entre a dor e o tédio

Daqui sai a imagem mais famosa do filósofo, presente em O mundo como vontade e representação. O raciocínio tem três passos:

  1. Desejar é sentir falta. Todo desejo nasce de uma carência, e a carência é uma forma de sofrimento.
  2. Satisfazer é apenas interromper a falta. Quando conseguimos o que queremos, a dor da carência cessa. Por isso Schopenhauer dizia que a satisfação é negativa: ela não acrescenta algo, só remove um incômodo.
  3. Sem desejo, sobra o vazio. Quando nada nos falta, não chega a paz. Chega o tédio, que logo produz um novo desejo, e o ciclo recomeça.

A vida, então, oscila entre esses dois polos. Quando o pêndulo está do lado do desejo, sofremos pela falta. Quando está do lado da conquista, sofremos pelo tédio. O ponto de equilíbrio, a satisfação, é só o instante em que o pêndulo passa pelo meio.

O domingo das quatro da tarde é exatamente esse instante já ficando para trás.

O que a psicologia moderna confirma, e o que não confirma

Quando se coloca lado a lado Schopenhauer e a felicidade medida pela psicologia, o mais surpreendente é como parte da intuição do filósofo reapareceu, com outro vocabulário, no século XX.

Em 1971, os psicólogos Philip Brickman e Donald Campbell cunharam a expressão esteira hedônica para descrever a tendência de o humor voltar ao nível habitual depois de conquistas e perdas. Sete anos depois, um estudo com ganhadores de loteria e vítimas de acidentes mostrou algo muito próximo do pêndulo: o ganho perde brilho, e o desejo se reposiciona (Brickman, Coates e Janoff-Bulman, 1978).

Mas a ciência também corrige o filósofo em pontos importantes. A adaptação não é completa em todos os casos, as pessoas têm níveis de bem-estar diferentes e duradouros, e vários estudos associam vínculos, sentido e engajamento a um bem-estar mais estável. O tédio também não é destino: muita gente encontra nas próprias atividades uma absorção que dispensa o próximo desejo por um bom tempo.

Em resumo: Schopenhauer acertou o mecanismo e exagerou a sentença. O artigo sobre adaptação hedônica mostra o que os estudos modernos encontraram.

As saídas que Schopenhauer apontava

Chamar Schopenhauer apenas de pessimista é perder metade da obra. Ele descreveu também formas de suspender, ainda que por instantes, a tirania da vontade.

A contemplação estética

Diante de uma obra de arte, especialmente da música, que ele colocava acima de todas as outras, o ser humano deixa de desejar e passa apenas a contemplar. Por alguns minutos, o pêndulo para. Quem já perdeu a noção do tempo ouvindo uma música sabe do que ele falava.

A compaixão

Para Schopenhauer, a base da ética é a compaixão: reconhecer no sofrimento do outro o mesmo sofrimento que nos atravessa. Ao sair do próprio desejo para enxergar o do outro, a vontade individual perde parte da força.

A sabedoria prática

Nos Aforismos para a sabedoria de vida, Schopenhauer deixa a metafísica de lado e escreve quase como um conselheiro. Ele divide o que determina a sorte de alguém em três partes: o que a pessoa é, o que ela tem e o que ela representa aos olhos dos outros. E defende que a primeira, saúde, temperamento, recursos interiores, pesa muito mais que as outras duas, embora passemos a vida investindo nas duas últimas.

Outro livro que chegou ao público brasileiro, A arte de ser feliz, reúne máximas práticas extraídas de seus manuscritos, organizadas depois da sua morte. A premissa é que o sábio busca menos o prazer e mais a ausência de sofrimento.

Schopenhauer e a felicidade: quatro lições para hoje

As lições abaixo são uma leitura editorial minha, e não citações do filósofo.

  1. Desconfie da promessa de satisfação permanente. Se um produto, uma meta ou uma pessoa promete encerrar a sua busca, o pêndulo sugere que ela vai só mudar de lugar.
  2. Invista no que você é, não só no que você tem. Repertório, curiosidade e saúde são recursos que diminuem o tédio sem depender da próxima compra.
  3. Trate o tédio como sinal, não como emergência. Ele não precisa ser preenchido imediatamente com um novo desejo. Às vezes, basta atravessá-lo.
  4. Procure os momentos em que o pêndulo para. Música, arte, natureza, trabalho absorvente: as pausas da vontade são raras, mas existem, e merecem espaço na agenda.

Para transformar a primeira lição em prática, o artigo sobre expectativas e realidade propõe perguntas para definir o que é suficiente antes de a conquista chegar.

As sombras do filósofo

Ler Schopenhauer hoje exige separar a intuição poderosa de visões que envelheceram mal. Alguns de seus ensaios, como o dedicado às mulheres, trazem preconceitos que eram comuns no século XIX e que hoje soam inaceitáveis. O pessimismo radical também foi duramente criticado, a começar por Nietzsche, que partiu dele para depois rejeitá-lo. O valor da obra está no diagnóstico, não na tentativa de transformá-la em manual completo de vida.

O vazio que estimula a próxima caçada

Se a relação entre Schopenhauer e a felicidade descreve o problema, a pergunta que fica é inevitável: dá para viver de outro jeito dentro do pêndulo?

A mesma inquietação move Lei da Satisfação, o meu livro. A contracapa descreve a satisfação como uma centelha viva que evapora logo depois da conquista, deixando o vazio que estimula a próxima caçada, uma formulação que conversa diretamente com o pêndulo. O livro combina filosofia, psicologia e ciência do comportamento para investigar em que condições a satisfação acontece e como atravessar a turbulência entre um desejo e outro.

Carlos Cezare segurando a brochura azul-marinho de Lei da Satisfação

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Perguntas frequentes

O que Schopenhauer dizia sobre a felicidade?

Que ela é negativa: não é um estado positivo duradouro, mas a interrupção momentânea de uma falta. Por isso ele recomendava buscar menos o prazer e mais a ausência de sofrimento.

O que é o pêndulo de Schopenhauer?

É a imagem segundo a qual a vida oscila entre a dor, quando desejamos algo que nos falta, e o tédio, quando conseguimos o que queríamos e o desejo se esgota.

Por onde começar a ler Schopenhauer?

Pelos Aforismos para a sabedoria de vida, que são acessíveis e práticos. O mundo como vontade e representação é a obra central, mas bem mais exigente.

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